
Conheça a história completa do Cemitério da Consolação, o cemitério mais famoso de São Paulo, considerado um museu a céu aberto.
Até o século XIX os católicos eram enterrados dentro das igrejas para garantir a proteção de suas almas pelos anjos e santos e auxiliar na entrada do Paraíso. Quanto mais caridosa fosse a pessoa, mais perto do altar ela era enterrada. Mas como tudo na vida, existia uma ordem: primeiro os padres, depois religiosos e depois a fé da pessoa. Claro que o poder aquisitivo interferia, mas o principal critério era a fé e a vida piedosa.
O sepultamento dentro da igreja era sinal de prestígio. Você pode se perguntar: mas as igrejas comportavam tantos corpos? Não. Quando não havia mais espaço dentro, os defuntos eram enterrados ao lado das igrejas. Quem não era católico era enterrado no Cemitério dos Enforcados, primeira necrópole pública de São Paulo, localizada no bairro da Liberdade.
No final do século XIX surgiram as noções de higiene pública e com elas, os primeiros cemitérios nas cidades. A relação entre higiene e os cemitérios estava no surgimento de tratados médicos e químicos que alertavam sobre os perigos de vivos e mortos estarem no mesmo espaço. Os médicos diziam que a decomposição dos corpos poderia disseminar doenças.
Após D. Pedro I promulgar a lei que proibia o enterro dentro das igrejas, a criação de mais cemitérios, tanto para católicos quanto para não católicos, era inevitável. Os cemitérios antigos têm uma arquitetura religiosa para que os mortos continuassem perto dos santos.
A lei de 01º de outubro de 1828, estabelecia novo regimento às câmaras municipais, e versava em seu título terceiro, “Posturas Policiais”, artigo 66 parágrafo II, sobre a necessidade do estabelecimento de cemitérios fora do recinto dos templos. Neste sentido caberia aos poderes municipais, a partir de suas posturas, determinar como se daria a construção dos cemitérios.
O cemitério da Consolação inaugurado em 15 de agosto de 1858 com o nome de Cemitério Municipal e administrado pela Câmara Municipal foi criado para resolver o problema de higiene pública. Quando foi inaugurado em 1858, todas as classes sociais eram sepultadas ali, inclusive os escravos que, posteriormente, passaram a ser enterrados no Cemitério dos Aflitos. Com a construção de novos cemitérios e o surgimento da burguesia a área foi elitizada e famílias ricas começaram a encomendar mausoléus suntuosos, passando o Cemitério da Consolação a receber pessoas de classes média e alta. Isso também se deve ao fato da prefeitura ter loteado o local em jazigos perpétuos que eram comprados por pessoas com condições financeiras.
Quanto mais suntuoso o jazigo, maior o status da família. Referência em arte tumular, o Cemitério da Consolação conta com muitas obras de artistas renomados como Vitor Brecheret, Rodolfo Bernardelli, Bruno Giorgi, Galileo Emendabili, Celso Antônio de Menezes, Luigi Brizzolara e Ramos de Azevedo que projetou seu portão principal.
Importantes personalidades da história paulistana foram enterradas no local. O mausoléu da Família Matarazzo, o maior da América do Sul, também tem seu abrigo no Cemitério da Consolação.
Projeto Arte Tumular do Cemitério da Consolação
Com o projeto Arte Tumular, o Cemitério mantém visitas guiadas pelo ex-sepultador Francisvaldo Almeida Gomes, mais conhecido como Popó. As visitas precisam ser agendadas com antecedência pelo e-mail da assessoria de imprensa assessoriaimprensa@prefeitura.sp.gov.br. As visitas são gratuitas.
Antes de visitar o local, entrei em contato para verificar se as visitas estavam sendo realizadas. O atendente informou que, devido à pandemia, as visitas estavam suspensas, mas que eu poderia visitar o Cemitério. Chegando no local, fui até a administração e quem estava lá? Ele mesmo, o Popó! Me explicou que as visitas não estavam suspensas, mas que precisavam ser agendadas com antecedência de 24 horas. Me entregou um guia para eu poder passear pelo local. Fui muito bem atendida por ele, que se mostrou bastante solícito em me auxiliar e lamentou não poder me guiar no tour.
Diferente do atendente do dia anterior que, ao invés de me passar o e-mail para agendamento da visita, disse que ela estava suspensa, mostrando-se mal-informado sobre o local em que trabalha, o Popó é bem diferente: funcionário apaixonado pelo que faz está sempre pronto para mostrar a história da cidade mais importante do Brasil, através das histórias das pessoas enterradas no Consolação.
Como não seria possível a visita guiada, havia pesquisado sobre o local e encontrei um aplicativo do Cemitério para que eu pudesse me guiar. O aplicativo não funcionou e claro, me deixou na mão. Sem um guia é bem difícil localizar os túmulos de pessoas que foram importantes para o crescimento da cidade.
As ruas não são sinalizadas em todas as entradas e fiquei muito tempo procurando o túmulo da Marquesa de Santos, da Tarsila do Amaral e de Anália Franco. Inclusive, não localizei muitos túmulos que eu queria ter visto. Rodei, rodei e nada de localizar o túmulo de prefeitos e governadores de São Paulo. O da Marquesa de Santos somente encontrei porque olhei o túmulo na internet. O da Tarsila foi muita persistência da minha parte. O que me ajudou foi o fato dos túmulos com QR Code terem uma plaquinha localizada no chão, porque ao andar pelas ruas, avistava a plaquinha e parava no local para ver quem estava enterrado ali.
Para ajudar seu passeio, segue a lista com os túmulos e o Guia de visitação do Cemitério da Consolação.
Também pelo mesmo projeto os túmulos de pessoas renomadas receberam um QR Code que leva o visitante à uma página contando a trajetória do homenageado.
Curiosidades sobre o Cemitério da Consolação
O Cemitério da Consolação serviu como cenário para produções de séries, filmes e videoclipes. Dentre as produções estão o filme “Sinfonia da Necrópole” e o vídeo “Lying in State” do Megadeth.
Mais sobre a história do Cemitério da Consolação
Em meados de 1829 que o então vereador Joaquim Antonio Alves Alvim defendeu a construção de um cemitério público na cidade. Por envolver crenças religiosas, a proposta resultou em imensa discussão que durou cerca de trinta anos. Durante esse período, o projeto foi sofrendo algumas alterações sobre sua localização, ao lado da igreja da Consolação, no bairro da Luz, ou no bairro Campos Elísios. Em 1855, o engenheiro Carlos Rath elaborou um estudo indicando que o melhor local era a região da Consolação, já que levava em conta a elevada altitude da região, a direção dos ventos dominantes, qualidade do solo e até então, a distância da cidade.
Uma parte do terreno era de domínio público, outra uma chácara pertencente a Marciano Pires de Oliveira. Foi somente um ano depois do início das obras que a Câmara Municipal conseguiu comprar a chácara pelo valor de duzentos mil réis. Entretanto, a construção seguia devagar por conta da falta de verba. Em 1857, a Marquesa de Santos doou dois contos de réis, uma considerável fortuna na época, para uso exclusivo na construção da capela.
Quando se deu o surto de varíola na cidade de São Paulo, em 1858, os corpos ainda estavam sendo enterrados nas igrejas. O presidente da província ordena então à Câmara Municipal de São Paulo, em 7 de julho de 1858, que proibisse a partir de então as práticas de sepultamento nos templos. Dessa forma o Cemitério da Consolação passaria a receber os primeiros corpos das vítimas desta epidemia, antes mesmo que as obras estivessem totalmente concluídas. Assim, no dia 15 de agosto de 1858, quando aconteceu o primeiro sepultamento, foi oficialmente inaugurado o primeiro cemitério público de São Paulo.
Descaso no Cemitério da Consolação
Quem lê artigos sobre o Cemitério da Consolação e vê algumas imagens de seus túmulos majestosos, nem imagina como é fazer uma visita a todo o local. É um lugar lindo, nem parecia que eu estava em um cemitério. Logo que cheguei, me deparei com o túmulo de Monteiro Lobato. Fui atrás de uma das pessoas que estava limpando alguns jazigos e perguntei como era feita a limpeza dos túmulos. Ela me explicou que alguns familiares pagavam para que eles limpassem seus jazigos. Questionei se eu poderia limpar o do Lobato. Ela me pediu para ir até a administração. Foi lá que conheci o Popó. Como eu já imaginava, não poderia mexer no túmulo de ninguém, a não ser, com autorização dos familiares.
Continuei meu passeio. Há sepulcros bem sinistros e confesso que algumas vezes me senti dentro do filme “Harry Potter e o cálice de fogo” quando Harry fica preso no cemitério à espera da volta de Voldemort.
Há tumbas bem maltratadas, sujas, quebradas e encontrei muito lixo dentro de algumas. O que mais me chocou foram as ossadas que vi dentro de uma caixa em uma das sepulturas. Havia lido algo sobre violação dos cadáveres e vandalismo, mas ao ver tudo aquilo, fiquei assustada. Fora que alguns jazigos estão cheios de mato, totalmente abandonados. Em um deles, encontrei alguns materiais de limpeza.
Esperava mais de um local que é considerado “Museu a céu aberto”, referência em arte tumular. E como já havia dito, a sinalização do lugar é péssima. Se você não conhece o cemitério, não será fácil localizar os túmulos homenageados. Algumas placas que foram colocadas, estão até quebradas. Para um projeto recente, pensei que estaria tudo novo, já que o cemitério tem câmeras de segurança e guardas.
Enviei um e-mail para a Assessoria de Imprensa questionando sobre o descaso acima. Abaixo a resposta deles, na íntegra:
“A Prefeitura de São Paulo, por meio do Serviço Funerário do Município de São Paulo (SFMSP), informa que a limpeza e conservação dos túmulos são de responsabilidade dos proprietários. A Autarquia esclarece que os jazigos mencionados já foram fechados”.
Mas tanto descaso não deveria ter me impressionado, visto que o local está localizado em um país em que a história e a arte não são valorizadas como deveriam.
E você? Já visitou o Cemitério da Consolação? Gostou da experiência? Deixe seu relato nos comentários para enriquecer ainda mais o nosso blog!
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