

O Museu da Imigração Japonesa no Brasil (MIJB), localizado na rua São Joaquim no bairro da Liberdade, tem um acervo com mais de 97.000 itens que pertenceram aos imigrantes japoneses, como fotos, jornais, documentos, quadros, utensílios domésticos, dentre outros.

Ensacador de algodão
Roupas de imigrantes

Malas de imigrantes
Documento de imigrante
Foi inaugurado pela Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social em 1978 quando celebravam o 70º da imigração japonesa no Brasil.

O Museu da Imigração Japonesa fica no edifício Bunkyo (Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e Assistência Social) que tem 9 andares. No 3º andar há uma biblioteca para pesquisadores, escritores e jornalistas. No 1º andar tem auditório, ginásio esportivo, salas para reuniões e o Museu de Arte Nipo-Brasileiro. O Museu da Imigração Japonesa fica no 3º andar e nos 7º, 8º e 9º andares está localizada a exposição do Museu Histórico da Imigração Japonesa.

O Museu da Imigração Japonesa é bem didático e conta toda a história dos japoneses no Brasil, desde a imigração no século XX, adaptação ao novo país, formação das colônias, agricultura independente, Segunda Guerra Mundial, Pós-guerra e a cultura japonesa introduzida em solo brasileiro como esportes, cultura e alimentação. Também mostra como os japoneses ajudaram o Brasil, economicamente falando, com a produção de outros produtos além do café, como o algodão, o rami e a igusa.

Conheci a feira da Liberdade e aproveitei para visitar o Museu. Quando entrei, a primeira coisa que me lembrei foi de um trabalho escolar na oitava série, no ano de 1900 e bolinhas no qual a professora pediu para que fizéssemos um seminário sobre a imigração japonesa. Não me lembro a matéria, somente me lembrava que o primeiro navio com imigrantes japoneses a desembarcar no Brasil foi o Kasato Maru.
Ele saiu do porto de Kobe, região de Osaka e chegou ao porto de Santos em 1908 trazendo os primeiros imigrantes nipônicos. Na verdade, trazendo com ele muita esperança, tanto para o território brasileiro quanto para o Japão. Continue lendo este artigo e entenda qual foi a importância da imigração para estes dois países.
Maquete de navio imigrante japonês
Ryo Mizuno
Ryo Mizuno iniciou a imigração japonesa no Brasil. Em 1906 ele viajou para conhecer o território brasileiro e observar se teríamos as condições necessárias para os japoneses residirem. Fundou a Companhia Imperial de Colonização que enviou a primeira leva de imigrantes ao Brasil a bordo do navio Kasato Maru. O navio chegou ao porto de Santos no dia 18 de junho de 1908 com 781 imigrantes japoneses.
Esse primeiro grupo de imigrantes encontrou dificuldades para trabalhar nas fazendas de café. Mizuno insistiu na imigração e enviou o segundo grupo de imigrantes com 906 japoneses que chegaram ao Brasil em 1910. Firmou contrato com o governo de São Paulo para a exportação de café para o Japão. Faleceu em São Paulo em 1951 com 92 anos de idade.
Antes de Mizuno, outras companhias de imigração tentaram enviar os japoneses ao Brasil, mas não foram bem sucedidas porque os representantes diplomáticos nipônicos eram contra a imigração japonesa.
O Brasil já via o Japão como eventual mercado para o café que estava passando por uma crise devido à superprodução. Em 1892 foi aprovado o projeto que permitia a imigração japonesa e chinesa ao Brasil (Lei nº 97).
Em 1893 Sho Nemoto, funcionário do Ministério do Exterior, veio ao Brasil para conhecer o território e a possibilidade de imigração. “O seu relatório tecendo elogios, sobretudo, ao Estado de São Paulo, agiu favoravelmente para a aproximação dos dois países”. Mas somente Mizuno conseguiu oficializar a imigração japonesa.
Por que o Japão se interessou pela imigração?
De acordo com o que consta no Museu da Imigração Japonesa, no século XIX o Japão passava por muitas transformações. O governo Meiji tinha como objetivo modernizar o Japão e torná-lo uma potência mundial.
Para isso, precisava industrializar, absorver a ciência e tecnologia do Ocidente e introduzir uma política e governo com parâmetros europeus ou norte-americanos. Assim, muitos japoneses foram enviados aos EUA. Com o passar dos anos, muitos foram os obstáculos para que os nipônicos conseguissem imigrar para o país norte-americano.

A imigração japonesa também resolveria o problema no campo. Os lavradores estavam muito pobres. O governo Meiji aumentou as taxas para os agricultores. Muitos desses trabalhadores, não conseguiam pagar os impostos e vendiam suas terras indo trabalhar em indústrias. Não tendo trabalho para todos, a miséria no campo só piorou. Assim, o governo via como uma das saídas a emigração de seu povo.
O Brasil na época da imigração japonesa
Depois da abolição da escravatura, o Brasil passou a receber imigrantes europeus para trabalharem nas lavouras de café. Com as péssimas condições de trabalho e maus tratos nestas lavouras, a Europa passou a dificultar a imigração de seu povo para o Brasil.
Essas condições ruins e maus tratos eram resquícios da época da escravidão, visto que o país estava passando por uma transformação e se adaptando à nova situação. Foi por causa da falta de europeus e necessidade de mão de obra que o Brasil passou a pensar nos japoneses e chineses para suprir suas necessidades.
A imigração no Brasil começou pelos europeus porque na época estavam em alta as teorias raciais como o Darwinismo Social que afirmava a superioridade do branco. O “branqueamento” afirmava que o Brasil era atrasado devido sua população ser de raça inferior, ou seja, mistura de negro com branco e mistura com índio.
Os nipônicos não serviam para o intuito do “branqueamento”. Mas devido a Europa dificultar a imigração, passaram a ser a única alternativa à elite brasileira, em especial, à elite paulista que passou a defender a imigração de japoneses e chineses para prosseguirem com os trabalhos agrícolas.
Hospedaria de imigrantes no Brás
Com a abolição da escravatura em 1888 era necessário mão de obra para trabalhar nas lavouras de café. Assim, o Brasil investiu na imigração porque precisava de trabalhadores livres para consumir os produtos industrializados, além de mão de obra para as lavouras de café.
Quando chegavam a São Paulo, os imigrantes iam para a Hospedaria de Imigrantes localizada no bairro do Brás, para serem acomodados e depois, destinados às lavouras no interior do estado. Hoje, a hospedaria abriga o Museu da Imigração.
Depois que terminar de ler este texto, aproveite para ler o nosso artigo sobre o Museu da Imigração, clicando aqui.
Há relatos de que os nipônicos causaram boa impressão porque, além de serem organizados e estarem bem vestidos, deixavam os refeitórios limpos e as camas arrumadas.
Leque comemorativo confeccionado por ocasião da Exposição Internacional do Centenário da Independência do Brasil
No Museu da Imigração Japonesa consta a informação: “Para os recém-chegados que começaram a vida nas fazendas de café, a moradia, a comida, o trabalho de colono, tudo era estranho e, sobretudo, as condições de trabalho e o manejo de novos instrumentos eram-lhe penosos. Paulatinamente, eles foram se habituando à nova vida, por vezes recorrendo-se a utensílios e ideias trazidos do Japão.”
A saúde dos imigrantes em São Paulo na década de 1910
Nas lavouras, os imigrantes japoneses ficavam em locais insalubres que tinham muitas doenças, como a malária, febre tifóide e amarela, disenteria, tuberculose, entre outras. Nestes lugares também tinham cobras venenosas, escorpiões e aranhas.
Muitas dessas doenças surgiram da falta de um bom lugar para morar e da má alimentação. A situação sanitária dos imigrantes era muito ruim porque, além da localidade não ajudar a terem boa qualidade de vida, também tinha a péssima situação financeira e o idioma português que eles não falavam.
Em 1926 o Consulado Geral em São Paulo criou a Sociedade Beneficente Dojinkai que passou a distribuir, gratuitamente ou a preço de custo, remédios, aparelhos médicos, além de orientar sobre os cuidados de higiene que os imigrantes precisavam ter.
Maleta de medicamentos
Dojinkai também realizava encontros e palestras orientadoras e enviava médicos para os imigrantes em São Paulo. Isso ajudou muito a melhorar a saúde dos imigrantes nas décadas posteriores.
A Sociedade Japonesa adquiriu um terreno em São Paulo e ergueu um hospital que foi construído, coletivamente pela comunidade japonesa. Inaugurado em 1939, o Hospital Santa Cruz era um dos hospitais mais modernos da América Latina. Para conseguir formar uma equipe qualificada, foi criado um curso de Enfermagem e, posteriormente, em 1945, a Faculdade de Enfermagem.
Objetos de uso médico
O cônsul Matsumura, que era representante japonês em São Paulo, auxiliou os imigrantes a se tornarem agricultores independentes, enviando materiais esportivos e remédios contra as diversas doenças existentes naquela época.
Os esportes dos imigrantes japoneses
Para aliviar o cansaço das longas horas de trabalho nas fazendas de café, os japoneses praticavam esportes. Foram eles que trouxeram ao Brasil esportes como o judô, kendô, sumô, beisebol, atletismo e outros.

Tabuleiro de “gô”
Luva e bola de beisebol
Conforme a vida dos imigrantes ia melhorando, os esportes passaram a ser algo mais que entretenimento. Dentre esses esportes, o atletismo e o beisebol eram os que os imigrantes mais gostavam. O atletismo começou em competições simples nos vilarejos do interior de São Paulo, se espalhando, aos poucos, por todo o interior paulista.
Cultura e entretenimento
Apesar de serem muito trabalhadores e trabalharem muitas horas diárias, os imigrantes japoneses sempre encontravam tempo para o entretenimento.
Livros japoneses
Alguns faziam versos, outros cantavam, alguns praticavam esportes, jogavam xadrez japonês (shogi), tocavam instrumentos, haviam festivais de dança, música, teatro e cinemas ambulantes com filmes japoneses e discos de música nipônica ouvida nas vitrolas.
Vitrola
Surgiram as revistas literárias e os jornais nipônicos com o intuito de manterem os imigrantes a par das principais notícias do Japão e do Brasil.

Jornais japoneses
A fundação das colônias japonesas
A fundação das colônias japonesas, também conhecida como “Marcha para Oeste”, foi uma nova fase da imigração japonesa no Brasil. Abaixo, algumas dessas colônias que surgiram no interior de São Paulo, com destaque para a instituição Rikkokai:
- Rikkokai: fundada em 1897, no Japão, é uma instituição que tinha o foco no desenvolvimento pessoal através do esforço próprio. Auxiliava os imigrantes a se sustentarem através do estudo e do trabalho.
- Aliança 1 em Mirandópolis: tinha uma Associação Ultramarina de Shinano, para incentivar a imigração e criar uma vila agrícola de imigrantes provenientes de Nagano.
- Moinho Velho em Cotia: um grupo de agricultores independentes que plantavam batatas e hortaliças nesta região, deram origem à Cooperativa Agrícola de Cotia.
- Tokyo em Motuca: ao terminar o contrato com as fazendas de café, alguns colonos compraram terras junto ao rio Motuca e iniciaram o cultivo de arroz, algodão e seda.
- Barbosa em Lins: plantando café, arroz, algodão, cereais e milho, os imigrantes iniciaram suas vidas de agricultores independentes.
- Nipônica em Itaquera: com o intuito de abastecer a cidade de São Paulo, alguns imigrantes iniciaram a plantação de hortaliças. Com o surgimento das feiras livres, tiveram muito êxito e passaram a plantar frutíferas.
As oportunidades no Estado de São Paulo
São Paulo é a terra das oportunidades e não foi diferente com os imigrantes japoneses. Em 1912 o governo do Estado de São Paulo doou 50 mil hectares de suas terras às margens do rio Ribeira de Iguape, para o Tokyo Sindicate assentar colônias agrícolas.
Essas colônias tinham estruturas planejadas com atendimento ambulatorial, centro de convivência e escola. Era um empreendimento de capital japonês e foi firmado um contrato de colonização dessas terras por cerca de 2.000 famílias de agricultores.
Agricultores independentes e as comunidades japonesas
Os imigrantes japoneses vinham trabalhar nas fazendas de café, com um contrato. Quando o contrato terminava, se eles não tinham condições para retornar ao Japão, permaneciam no Brasil como agricultores independentes.
Por não conhecerem o idioma português e não terem ideia de como era a situação sócio-cultural do Brasil, se agrupavam entre eles, conheciam novas terras e iniciavam uma vida coletiva na qual, ajudavam-se mutuamente.

Nesses lugares que tinham uma grande concentração de japoneses, outros chegavam e se instalavam para serem ajudados e também por causa do idioma e da cultura comum entre eles. Assim, as comunidades ou colônias japonesas se formaram. Nessas colônias a primeira atividade coletiva de construção era uma escola para seus filhos.
A cabana do imigrante
Com o dinheiro que recebiam pelo trabalho nas lavouras de café, os imigrantes compravam lotes de terras dentro da mata virgem e construíam cabanas apenas como abrigo. No Museu da Imigração Japonesa, há uma cabana reconstituída para termos ideia de como eram as construções feitas pelos japoneses.
No fogão dentro da cabana, tem até o barulho de comida fervendo. Uma delícia de lugar! Deu até vontade de passar uns dias lá dentro.







Wasaburo Otake
Wasaburo Otake trabalhou como tradutor e intérprete na Embaixada em Tokyo no ano de 1897. Elaborou publicação de dicionários português-japonês e japonês-português, livros de gramática e conversação, com o objetivo de facilitar a comunicação dos japoneses com os brasileiros. Essas obras foram de uso indispensável para os imigrantes japoneses no Brasil.


Diversidade agrícola no Brasil
Os imigrantes vieram para trabalhar em lavouras de café, com o tempo diversificaram o produto e passaram a trabalhar com o algodão. Também industrializaram produtos do Japão como o rami e o chá.

Foram os imigrantes japoneses que fizeram renascer o cultivo do chá na década de 1930. O chá foi trazido ao Brasil pelos chineses em 1812, mas quase desapareceu no século XIX.
Chás dos imigrantes
As escolas japonesas no Brasil
Muitos imigrantes japoneses queriam voltar ao Japão quando acabasse o contrato com as lavouras de café. Esperavam que tivessem dinheiro o suficiente para retornarem à sua pátria e, para que seus filhos não estranhassem o Japão, construíram escolas que ensinavam o idioma japonês e toda a cultura nipônica.
As escolas para as mulheres eram destinadas às tarefas domésticas, havia escola de corte e costura, culinária, dentre outras que preparavam as mulheres para serem excelentes donas de casa.

Muitas dessas escolas fecharam por determinação do governo brasileiro, por causa de ideais nacionalistas e fascistas vigentes no governo Vargas.
A primeira delas, que se tornou referência para as demais, foi a Escola Taisho de Shinzo Miyazaki, localizada na Sé, São Paulo, local de maior concentração de japoneses.

Nem todos os imigrantes que chegavam, iam para as cidades do interior do estado. Muitos ficavam na capital paulista e passavam a morar no chamado Bairro do Conde.
Como chegar no Museu da Imigração Japonesa
O Museu da Imigração Japonesa no Brasil está localizado na Rua São Joaquim, 381 no bairro da Liberdade. A estação de metrô mais próxima é a São Joaquim da linha azul.
Você também pode aproveitar para conhecer a feira no bairro da Liberdade que fica ao redor do metrô Liberdade, também linha azul. Dá para caminhar da feira até o Museu.
Maquete de barco, em tamanho real, com imigrantes japoneses
Horário de funcionamento e valores, consulte o site da Bunkyo.
Você já conhecia a história da imigração japonesa e do Museu da Imigração Japonesa? Compartilhe conosco seu conhecimento!
Para mais textos sobre viagens e passeios, clique aqui.
Views: 260

Ensacador de algodão
Roupas de imigrantes
Malas de imigrantes
Documento de imigrante
Maquete de navio imigrante japonês

Leque comemorativo confeccionado por ocasião da Exposição Internacional do Centenário da Independência do Brasil
Maleta de medicamentos
Objetos de uso médico
Tabuleiro de “gô”
Luva e bola de beisebol
Livros japoneses
Vitrola
Jornais japoneses
Chás dos imigrantes
Maquete de barco, em tamanho real, com imigrantes japoneses

